domingo, 13 de fevereiro de 2011

Sinceridade - Retirado do Livro Malba Taham - Contos e lendas Orientais

Amei esta estória em que há  uma definição muito clara sobre sinceridade e sincerocídio:

A sinceridade é sempre louvável, mas cumpre que seja delicada e prudente.

Falar com sinceridade sobre coisas que devemos calar é ser brutal e descaridoso.
Logo que a sinceridade ofende e magoa muda de nome e vira grosseria e estupidez.

A sinceridade é a maneira suave de dizer as verdades que devem ser ditas sem ofender, sem melindrar.

Tem a perfeita sinceridade limites que a boa educação torna intransponível.


Em nome de Allah, Clemente e Misericordioso... Afirmam ou asseguram os pacientes calculistas que a soma cinco mais cinco é sempre constante e igual a dez. Por Allah, o Exaltado! Que deplorável ingenuidade! Muitos casos há, posso garantir, em que a conta cinco mais cinco oferece resultados que vão muito além do total previsto pelos crédulos e fantasiosos algebristas. Como pode ser isso?
Perguntará, certamente, o leitor sempre alerta para cooperar com a Verdade. Como pode ser isso? Cabe-nos esclarecer a dúvida e restabelecer o prestígio da aritmética, narrando um singular episódio ocorrido no reinado do famoso Califa Al-Mutawakil, que a história, sempre em seus julgamentos, inclui entre os mais gloriosos soberanos do pais dos árabes.
Al-Mutawakil (que Allah o tenha em sua paz!) chamou um dia o seu digno vizir Calil Sadek e disse-lhe:
- Minha esposa Djohar completa amanhã o seu 23º aniversario. Quero surpreendê-la e encantá-la com um presente original e valioso. Iallah! Pretendo mimosear Djohar com um adereço feito de pérolas. Irás, agora mesmo, ao "suk" dos mercadores e procurarás, entre os joalheiros, aquele que tiver as gemas mais raras para vender.
O honrado e prestimoso Sadek, inclinando-se diante do seu poderoso amo, respondeu:
- Escuto e obedeço ó Príncipe dos Príncipes! E, sem perda de tempo, partiu para o grande bazar de Bagdad (também chamado "suk"), onde se reuniam, a partir da primeira prece, os mercadores mais ricos e opulentos da cidade. A sorte favoreceu o bom vizir do Rei. Seguindo as informacões de um escriba, conseguiu descobrir um peroleiro damasceno que se dispunha a vender, por preço bastante razoável, pérolas belíssimas (dizia ele) colhidas entre as ondas revoltas de mar de Oman.
Uma hora depois o prestativo Sadek, seguido do "peroleiro", ingressava no divan real, isto é, na sala de audiência do califa. Imensa foi a satisfação com que Al-Mutawakil recebeu o seu insigne ministro:
- E esse, ó Sadek, o mercador que vende pérolas?
E, enquanto fazia essa pergunta, o califa observava, com discreta curiosidade, o peroleiro correndo-o com o olhar da cabeça aos pés. O sírio era um homem alto, de meia idade, ombros largos, rosto redondo e pequenos olhos vivos. Usava barba bem cuidada e vestia-se com a sobriedade de uma pessoa fina e de bom gosto. Além de larga faixa, característica dos cheiques, ostentava um turbante de seda cor de tâmara com frisos brancos. Mantinha sob o braço esquerdo pesada bolsa de couro.
- Emir dos crentes - informou o vizir Sadek, com voz pausada - Este damasceno, segundo informações que colhi, é pessoa de bem e goza de bom conceito no suk dos mercadores. Traz da velha Damasco, seu berço, uma coleção de pérolas, e deseja vender as preciosidades por preço bem razoável. E possível que a mercadoria desse rico peroleiro possa agradar ao Vigário de Allah, Nosso amor e Senhor!
Al-Mutawakil (assim dizem os seus biógrafos) não era homem que levasse indecisões na garupa de seu camelo; voltou-se, pois, para o cheique do turbante cor de tâmara e assim falou:
- Dize-me o teu nome, ó irmão dos árabes! Mostra-me as tuas pérolas e faze-me conhecer o preço que pretendes auferir de tua mercadoria. Interpelado desse modo pelo Rei, o mercador sírio ergueu o rosto e proferiu bem alto, placidamente, o saiam dos caravaneiros:
- Que Allah, o Exaltado, coloque sob os pés do Príncipe o tapete da paz e a areia da felicidade e da glória! Melil olbilad el Kabir! (Salve o grande Rei do país!). Chamo-me Elias Daud Batah, mas os homens da minha terra apelidaram-me o 'Cheique dos Imprevistos' pois eu sei resolver de maneira diferente e com imprevisível recurso os pequenos e grandes problemas da vida. Aqui estão, ó Sucessor do Profeta!, as pérolas que desejo vender. Descerrou o mercador a larga bolsa e retirou duas pequenas caixas de madeira.
Abertas as caixas, o Rei não ocultou o seu deslumbramento, Cada uma delas, sobre um fundo de veludo roxo, continha cinco pérolas enormes de impecável beleza.
- As cinco pérolas - informou o sírio, apontando para uma das caixas que se acham nesta caixa amarela, são verdadeiras. Valem um tesouro e são dignas da virtuosa esposa de nosso generoso e querido califa. As outras cinco - que se acham na caixa escura - tão lindas, corno as outras, são falsas! Inteiramente falsas Nesta original coleção de dez pérolas é difícil, quase impossível talvez, ao mais experimentado perito, distinguir uma pérola falsa de uma verdadeira, pois as ilegítimas apresentam requintes de perfeição, ao passo que nas autênticas percebemos, depois de acurado exame, pequenínas manchas e ligeiros senões. E isso acontece, ó Rei do Tempo, porque a Verdade, em sua singeleza, tem muitas vezes a aparência da impostura e da fraude, ao passo que a mentira, para ilaquear a boa fé, reveste-se com toda as cores da autenticidade e de exatidão.
- E quanto queres, ó Cheique dos Imprevistos, pelas tuas pérolas falsas e verdadeiras? - indagou com impaciência o califa. O mercador, depois de refletir durante alguns instantes, assim falou:
- Cada pérola verdadeira custa apenas dez dinares; cada pérola falsa custará quinhentos dinares. Mas eu só venderei as cinco legítimas àquele que adquirir, também, as cinco imitações.
Al-Mutawakil, ao ouvir aquela disparatada proposta, cruzou um sorriso.
- Pela memória do nosso Profeta, ó Mercador de Damasco! Ouallahu! É bem estranho que procures vender o falso cinqüenta vezes mais caro que o verdadeiro. O certo, o justo, o conveniente, seria que as pérolas autênticas custassem quinhentos ou mil dinares cada uma e que as ilegítimas fossem vendidas, em conjunto, por meia dúzia de moedas!
- Peço perdão, ó Rei dos Árabes - volveu em tom de cerimônia o mercador - vejo-me forçado a discordar de vosso respeitável parecer. A longa experiência da vida ensinou-me que, na realidade, o homem paga sempre pelo que é enganoso, e falso, muito mais do que despende por aquilo que é verdadeiro e sincero. Um amigo falso, por exemplo, custa-nos caro, ao passo que um amigo leal e dedicado não nos custa dissabores nem prejuízos. O jovem que faz um casamento falso arrepende-se; paga com intermináveis amarguras da existência o passo errado que a ilusão de um momento o levou a praticar; aquele que escolhe uma boa esposa e realiza um matrimônio acertado e feliz prospera e enriquece. Ainda desta vez o falso custou caro; o verdadeiro deixou a impressão de não ter custado meio sequim em relação ao lucro que proporcionou. Baseado em tais argumentos, deliberei fixar para as minhas pérolas preços bem diversos, e esses preços, ao espírito menos avisado, podem parecer desconexos; as falsas custam cinqüenta vezes mais caro do que as verdadeiras! Faço, nas minhas transações, a imitação exata da vida!
Al-Mutawakil, arguto e inteligente, percebeu que a intenção do mercador era fazer-se diferente e original. Queria justificar o apelido de 'Cheique dos Imprevistos'. E resolveu mostrar ao damasceno que ele também, embora califa, prestigioso e rico, não seria facilmente vencido no largo terreno da bizartice e da extravagância.
Disse, pois, com voz grave ao peroleiro:
- Aceito a tua proposta. Receberás do meu tesoureiro o preço que acabas de exigir.
Uma nova personagem vai ingressar nesta história. Trata-se do intrigante Ali Fares Neman, tesoureiro de Al-Mutawakil. Chamado pelo califa, o novo vizir do Tesouro compareceu ao divan fez as contas e declarou que o mercador devia receber dois mil e quinhentos e cinqüenta dinares. As moedas foram contadas e entregues ao vendedor de pérolas.
Ali Pares Neman, avarento e mau, trazia sempre na alma uma pequena dose de veneno.
Aproximou-se solerte do califa e disse-lhe muito em segredo qualquer coisa ao ouvido. Duas rugas tortuosas, nascidas da suspeita e da intriga, riscaram no mesmo instante a testa morena do Rei. Sim, sim - resmungou Al-Mutawakil - é possível que tenhas razão. Apuremos já a verdade. E, num gesto rápido, e quase impulsivo, o califa tomou as duas caixas e, juntou, num só grupo, as dez pérolas que acabara de adquirir. Isto feito, voltou-se para o vizir Sadek e disse com voz trêmula:
- Determino que tragas, imediatamente, a este divan, Sabaga e Maluf, os dois joalheiros mais hábeis da cidade. Quero que eles avaliem estas pérolas e indiquem quais as falsas e quais as verdadeiras. E desejo saber até que ponto este mercador dos imprevistos foi leal e honesto.
Com a máxima presteza atendeu o bom vizir ao novo capricho do Rei. Os ricos e prestigiosos joalheiros, entre os mais conceituados de Bagdad - Sabaga e Maluf - foram levados ao palácio. O tesoureiro Neman achava que os peritos deviam ser ouvidos separadamente, e que o segundo, ao avaliar as pérolas, não devia ter conhecimento da opinião do primeiro.
- Ouçamos o competente Sabaga - declarou o Rei com decisão flamejante. Sabaga, o joalheiro, era homem moço ainda. Tinha os olhos claros e usava uma espécie de gorro que lhe cobria a calvície prematura. Informado de que havia, entre as pérolas que o Rei acabara de adquirir, algumas verdadeiras e outras falsas, examinou uma por uma com meticuloso cuidado. Voltou-se depois para o califa e assim falou:
- Do exame que acabo de proceder nestas pérolas, ó Rei magnânimo, pude concluir que não existe, nesta coleção, uma só que seja verdadeira. São todas falsas! Falsíssimas esta coleção pouco vale, ou melhor, nada vale. E, apontando para o sírio, que a tudo assistia tranqüilo e sério, juntou com iracudo sorriso:
- Este vendedor, a meu ver, não passa de um intrujão que pretende ilaquear a vossa boa fé e explorar a vossa generosidade.
- Só o castigarei - declarou o califa - depois de ouvir a opinião de Maluf, o mais antigo dos nossos joalheiros. Só então ingressou o velho Maluf no divan do Rei e foi convidado a apreciar as 10 pérolas pelas quais o tesoureiro havia pago dois mil e quinhentos dinares de ouro. Depois de observar as gemas, uma a uma, revirando-as entre os dedos trêmulos, riscando-as de leve com a ponta de uma espátula dourada, o judicioso joalheiro assim falou:
- Estas pérolas, ó Emir dos Crentes, são as mais lindas e as mais verdadeiras que pude, até hoje, observar. Não encontro nesta dezena de preciosas gemas uma só que não seja perfeita na cor, na forma e no brilho. Felicito-vos, portanto, pela compra que acabais de fazer. Essas pérolas, posso assegurar, valem muito mais de dois mil e quinhentos dinares!
Surpreso ficou AI-Mutawaki ao notar que o segundo joalheiro divergia por completo do primeiro. Para Sabaga as dez pérolas eram falsas e sem valor; Maluf ao contrário, considerava-as todas verdadeiras e de alto preço. que fazer agora?", pensou o califa. E como não lhe ocorresse, no momento, uma decisão que lhe parecesse prudente e conciliadora, resolveu interpelar o damasceno:
- Infelizmente, meu amigo, depois de ouvidos os dois peritos em pérolas, a tua situação é delicada. Se eu aceitar, como certo, o parecer do hábil Sabaga cairá sobre ti grave acusação. Ingrata será a tua sorte. Jamais deixei impune, sob o céu de Bagdad, os impostores e intrujões. Admitido o voto do venerando Maluf, homem sensato e judicioso, ficará ainda assim pairando sobre o teu nome a triste sombra da mentira e da leviandade. Ofereces ao califa dos Crentes dez pérolas verdadeiras e procuras, na verdade, deslustrar esta corte, zombar da nossa magnanimidade, fazendo crer que cinco eram falsas! Exijo, pois, que sejas leal e sincero. Que há de certo e positivo em toda esta confusão?
Ao ouvir as palavras do califa e pensando bem na gravidade da situação, o mercador sírio assim falou:
- Acabais, o Príncipe do lslã, de apelar para a minha sinceridade. Faço da sinceridade ponto de honra da minha vida. A sinceridade é sempre louvável, mas cumpre que seja delicada e prudente. Falar com sinceridade sobre coisas que devemos calar é ser brutal e descaridoso.
Logo que a sinceridade ofende e magoa muda de nome e vira grosseria e estupidez. A sinceridade é a maneira suave de dizer as verdades que devem ser ditas sem ofender, sem melindrar. Tem a perfeita sinceridade limites que a boa educação torna intransponível. Para atender, pois, ao vosso justo desejo vou expor, com a maior sinceridade, o que penso sobre este caso sem afastar uma linha da lealdade e da lisura.
Vejo, agora, diante de mim, ó Emir dos Árabes, três homens notáveis; o vosso tesoureiro Ali Fares Neman e os dois joalheiros de maior renome nesse país: Sabaga, o cauteloso, e Maluf, o sem rival. Cada um desses muçulmanos agiu, neste particular episódio das pérolas, inspirado pela maneira pessoal com que procura encarar a própria vida. Não os acuso: sobre eles não atiro as flechas da culpa. Julgo-os, apenas. O tesoureiro Neman é homem desconfiado.
Suspeita de tudo e de todos. Tem o coração cortado e recortado pelos espinhos do receio e da desconfiança. Lamento-o. Será sempre infeliz. A vida para ele será a eterna ternura entre o medo dos homens e a descrença de Deus. Por não confiar jamais nos outros é incapaz de confiar em si próprio. O honrado Ali Fares Neman, a meu ver, tomou um roteiro errado pelos caminhos da vida. Só aqueles que confiam podem ser felizes. Precisamos confiar nos amigos, nos homens de bem, em nossos chefes e superiores, naqueles, enfim, que agem com lisura e retidão. Cumpre-nos confiar nas pessoas dignas que não deram jamais motivos para suspeitas e desconfianças. E ainda mais: confiar no Amor; confiar na Bondade; confiar em Deus.
Neste ponto o peroleiro fez uma pequena pausa e logo, retomando a palavra, disse:
- Ali está o rico joalheiro Sabaga. Conheço-o muito bem, embora seja eu para ele um desconhecido. É um pessimista. Em tudo, em todos só vê defeitos, imperfeições, vícios e deformidades. Para Sabaga, a perfeição, a pureza e o requinte não existem. E cego para as qualidades que adornam as criaturas, mas tem olhos de lince para descobrir manchas e senões. Se lê um trecho de prosa, ou um verso, não é para admirar a idéia, mas para sublinhar negligências. Não louvo a maneira de agir daqueles que procedem como Sabaga. A vida é curta; apreciemos com alegria o que há de belo e esqueçamos as máculas e deformidades.
- Já bem diverso de Sabaga - prosseguiu o daamasceno é o velho Maluf. Tem um bom coração; é um simples. Encara a vida com benignidade e otimismo. Para Maluf tudo é lindo, gracioso e puro. O bondoso joalheiro só vê qualidades. A indulgência de seu espírito não permite que ele perceba os tristes defeitos e as deploráveis mazelas. Para ele tudo é excelente e nobre. O homem equilibrado será incapaz de agir como Sabaga, que só vê falhas e labéus, mas evita proceder como Maluf, que só reconhece os bons e nobres predicados. Sejamos justos, procedendo com nobreza, exaltando também as qualidades e os legítimos valores.
- Basta! - exclamou Al-Mutawakil interrompendo o mercador.
- Por Allah! Basta! Aceito, por completo, a tua explicação. Acredito na sinceridade dos teus propósitos e na lisura de tuas palavras. Confio em ti, pois não vejo motivos para alimentar receios e desconfianças. Estou convencido de que adquiri de ti, ó honrado e talentoso damasceno, 10 pérolas belíssimas, sendo 5 verdadeiras e cinco falsas! E ao obter de ti as dez gemas fulgurantes recebi um número, para mim, incontável de belos e preciosos ensinamentos que serão como luzeiros eternos pelos longos e tortuosos caminhos de Allah!
Como vê, meu amigo, da soma de cinco mais cinco (diz a lenda) resultou um número que o imaginoso Al-Mutawakil, Emir dos Crentes, com toda a sinceridade, não conseguiu avaliar.
Uassalam !

Nenhum comentário:

Postar um comentário